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Brincar livre como forma de romper o ciclo de violência

22/11/19 12:36 - Notícias

22 de novembro de 2019

Jussara de Jesus mora na Ocupação Quilombo do Paraíso, localizada no Subúrbio Ferroviário de Salvador, e tem três filhos: Vitória de 13 anos, Nicolas de nove anos e Isabele de 10.  Jussara conta que seus filhos são crias do Estação Subúrbionos trilhos dos direitos. Nicolas, por exemplo, tinha apenas seis quando a equipe chegou na comunidade promovendo o brincar como a principal estratégia para o combate à violência na comunidade. Inicialmente com as crianças e adolescentes, hoje, três anos depois, a brincadeira reúne crianças e adultos, transformando relações nas famílias.

No sábado, 16 de novembro, aconteceu o Encontro com as famílias, um momento de integração entre adultos e crianças para tornar real o desejo das famílias de que seus filhos tenham garantido o cuidado que todas as crianças têm direito.  Jussara destaca a importância da atividade pela falta de tempo dos pais de brincar com as crianças. Para ela, a “brincancia” tem sido muito importante para o desenvolvimento delas. Nicolas, por exemplo “não conversava, não brincava, era todo calado. Com a ajuda do Projeto ele se desenvolveu muito na comunicação”, disse Jussara.

Ao lembrar sua infância, Jussara conta que não brincava, apenas trabalhava. “Eu acho muito importante que meus filhos possam brincar, viver o que eu não pude”, afirma.  Sônia Bandeira, consultora associada da Avante – Educação e Mobilização Social, executora do Projeto, em parceria com a KNH, fala sobre a relevância desse momento inter geracional, “a atividade da equipe do brincar livre tem como foco melhorar a integração e as relações entre adultos, adolescentes e crianças, voltada para a redução dos conflitos e a interação não violenta. Trabalhamos com o resgate das brincadeiras tradicionais, respeito mútuo e troca de saberes entre gerações”, disse.

Marcio Araújo, adulto, morador da Ocupação, costuma brincar de baleado com as crianças e a equipe da Avante, e fala sobre a importância delas estarem em movimento, “se distraindo com coisas positivas”, para ele, “todo mundo se diverte junto, as crianças mais, mas nós adultos também”. “Na verdade as crianças já vinham apontando que parte da expressão de violência presente no comportamento delas, vem a partir da vivência familiar. Partiu delas essa necessidade de estar juntos de outra forma. A gente busca estar perto com cuidado e com carinho, ajudando a transformar as expressões de afeto. Nossa proposta é proporcionar um convívio lúdico entre crianças e adultos para que essa transformação possa ocorrer”, disse Ana Marcilio, consultora associada Avante e coordenadora do Projeto.

Brincar

Isabelle, de 10 anos, conta muito animada como é o dia a dia no Projeto: “eu brinco sempre com os meninos, a gente se pinta quando tem tinta. É toda quarta”. Ela relata uma mudança na relação com outras crianças, “as vezes tem briga. Eu mesma brigava muito, era só alguém olhar pra mim que eu já ia pra mão. Agora mais não, já entendi que briga é ruim pra todo mundo. Esses dias teve um briga, Zé [Zé Diego, educador brincante do Estação Subúbio] fez uma roda grandona pra gente conversar. A gente sabe que não é pra trazer peso de briga pro Projeto. Zé pergunta o que aconteceu, explica que eles estão aqui para ajudar nos problemas de casa também, mas que precisa falar, não bater. A gente nessa conversa decidiu que o menino que bateu vai ser suspenso por duas semanas, mas depois ele volta”, contou.

Já Kauane de 11 anos, destaca gostar da liberdade de brincar que o Projeto oferece, “não gosto de brincar de boneca, prefiro brincar de jogar bola, baliô na rua, pular corda e também de escrever cartas e dançar”. Alexia de 7 anos, concorda e afirma que sentir a mesma liberdade, “adoro brincar de boneca, mas de pular corda também”.