Notícias

Ser Brincante e o brincar no cotidiano das crianças de Brumado

24/08/18 09:34 - Notícias

24 de agosto de 2018

Falar sobre a importância do brincar, compreender que este é um direito garantido às crianças em importantes documentos nacionais como a Constituição Federal (1988), artigo 227; seguida do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA/1990), artigos 4° e 16, é algo garantido para boa parte da população, em especial aquela que atua diretamente com as crianças no dia a dia. O desafio agora é tirar a Lei do papel e garantir esse direito no cotidiano de todas as crianças. Foi o que fez o município de Brumado, na Bahia, ao longo de sete meses, com a realização do projeto Ser Brincante (Avante e Instituto InterCement), ao promover vivências, diálogos e reflexões sobre o brincar. Adultos redescobriram o prazer de brincar e recordaram a sua infância, período tão marcante da vida de cada um.

“Nós sempre trabalhamos a temática do brincar na Pastoral, mas o que eu sinto diferente é que, agora, onde a gente chega falando sobre a importância do brincar, somos entendidas. Antes ninguém levava a sério”, ressaltou Vera Lucia Silva, representante da Pastoral da Criança. Ela deu como exemplo de reconhecimento da importância de garantir esse direito á criança, a última edição da Revista Pastoral da Criança (Ano 4, nº 12, Maio/Junho/Julho 2018), que teve o brincar como tema.

E por que será que a Vera Lucia vinha vivenciando esse desafio, de não ser levada a sério na hora de propor o brincar na rotina, se esse direito é garantido por lei e reconhecido na teoria, para todas as crianças? Para brincar é preciso envolvimento e criação de vínculos, ou seja, mais do que saber da sua existência, é preciso criar momentos, construir seus próprios brinquedos, dar muita risada juntos. A criança com a criança, e a criança com o adulto. Pensando nisso, um dos temas da formação foi o adulto brincante. Por meio de vivências, os participantes reconectaram-se com o brincar. Por meio de um adensamento teórico, promovido pela equipe da Avante, foi fomentada a ressignificação do brincar na rotina dos adultos.

Terezinha Janine, coordenadora do centro de referência especializado de assistência social (CREAS) Chico Xavier, observou que um dos maiores desafios encontrados no dia a dia dos profissionais é sensibilizar famílias e outros adultos sobre a importância do brincar, quando eles próprios não brincam, não se dispõe a sentar no chão com as crianças para adentrar no universo da infância. Ela afirmou que, para superar isso, foram realizados encontros espelhados nas formações do projeto Ser Brincante. “Nós brincamos, meditamos, resgatamos memórias da infância. E tivemos avanços”, disse Terezinha Janine.

Um dos aspectos abordados nos encontros de formação do Projeto, por exemplo, é a capacidade da criança de transformar tudo a sua volta em brincadeira, o que impactou as ações realizadas no trabalho da equipe de Terezinha Janine, mas também na sua vida pessoal, e de cada profissional envolvido. “Nós mudamos nosso olhar diante do direito do brincar e isso impactou, inclusive em nossas famílias, em coisas simples, no nosso dia a dia. Minha filha, por exemplo, quando está num shopping ou esperando por algo muito demorado, começa a pular. Normalmente eu reclamaria e pediria a ela para se comportar, andar direito, mas eu comecei a perceber que o que ela estava fazendo era transformar aquele momento numa brincadeira. Eu mudei totalmente a rotina com minha filha, eu brinco mais com ela, tenho mais tempo para ela, tudo isso devido ao Projeto“, contou.

Além dos encontros presenciais, o Projeto distribuiu para todos os participantes a publicação Brincar pra quê? que, entre outros temas, aborda o papel do adulto para a garantia do direito ao brincar.

Ao longo das formações, o grupo foi ficando cada vez mais solto e sensível, mais maduro para se sentir criança novamente. “Foi muito bacana ver o engajamento dos participantes que chegavam contando histórias sobre as brincadeiras que têm implementado em suas rotinas com as famílias e no trabalho com as crianças. Depois, foi bom ver esse grupo, que começou o processo meio tímido, participando muito mais ativamente durante as oficinas”, disse Carolina Duarte, uma das consultoras associadas da Avante que mediou os encontros.

Práticas

Os resultados de todo esse movimento são momentos de brincadeiras e ludicidade não com junto às crianças, mas com seus familiares e outros atores da rede de atendimento às crianças do município, colaborando, assim, para trazer para o cotidiano o que está garantido no papel há quase 30 anos. Presentes às formações, coordenadores e gestores da Secretaria de Educação deram depoimentos de algumas transformações implementadas na Educação Infantil do município.

Vera Lucia conta que a Pastoral da Criança passou a promover o brincar em família, ao longo do período das formações do Projeto. “Nós fizemos uma oficina para ensinar às mães como brincar e como confeccionar alguns brinquedos. Foi uma festa, tanto elas como as crianças ficaram muito felizes. Tiveram mães que se emocionaram porque, segundo elas, nunca tinham vivenciado um momento de brincar com os filhos, e além dos próprios filhos, com os filhos de outras mães também”, disse.

Patrícia Maria dos Santos, coordenadora da Educação Infantil de Brumado, ressaltou que houve muitos avanços com a contratação de novos profissionais para as creches e destaca a grande contribuição das formações do Projeto para a organização de rotinas pedagógicas mais criativas e lúdicas. “O impacto chegou até no berçário, que hoje passou a ter mais exploração do ambiente e brincadeiras livres”, disse.

Na Assistência Social, segundo Gilvania Lelis Silva, do CRAS/SESOC, as oficinas do Ser Brincante inspiraram ações nos diversos espaços, para públicos diferenciados: oficina de pião com crianças e adolescentes do serviço de convivência e fortalecimento de vínculos; jogo de obstáculos com as famílias; brincadeira mãe e filho/a; e até de ‘volta à infância’ com os idosos do CRAS que puderam resgatar o brincar. “Sem dúvida, o projeto Ser Brincante nos sensibilizou para o brincar”, disse Gilvania Lelis.

“Foi lindo ver como as instituições têm ampliado os espaços de brincar, tanto propondo ambientes organizados com brinquedos, circuitos, livros, levando as crianças para brincar no quintal da instituição ou na praça do bairro. Isso mostra a ampliação da percepção da importância do brincar”, disse Carolina Duarte.

Ser Brincante

O Projeto foi estruturado com o intuito sensibilizar e mobilizar profissionais dos Conselhos Tutelares, Conselho Municipal da Criança e do Adolescente (CMDCA), CRAS, CREAS, secretaria de Educação, Conselho Municipal de Educação, Secretaria da Saúde e representantes das famílias de crianças de 0 a 6 anos, para implementação do direito do brincar em todas as instituições que atendem a estas crianças no município.

As ações do Ser Brincante dialogam com o Plano Nacional pela Primeira Infância (PNPI), a Convenção Nacional sobre Direitos da Criança, as Diretrizes Nacionais Curriculares para a Educação Infantil (DCNEI/2009) e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que trazem o brincar como direito e via necessária para o desenvolvimento e aprendizagem da criança.

A iniciativa é mais um passo em direção a concretização da missão institucional da Avante de: contribuir para a formação do cidadão, pela educação e o desenvolvimento de tecnologias de intervenção social, visando à garantia dos direitos sociais básicos e ao fortalecimento da sociedade civil.