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Reconhecer-se é ato fundamental na construção da identidade

27/12/19 12:19 - Notícias

27 de dezembro de 2019

Na manhã de 14 de dezembro, o projeto Estação Subúrbio – nos trilhos dos direitos (Avante e KNH) transformou o espaço da Ocupação Quilombo do Paraíso em uma “expo-circense”. Cercadas por maçãs do amor, pipocas, cachorro quente e algodão doce, as crianças sentiram o sabor e a alegria de se reconhecer e testemunhar a transformação do muro cinza em memória viva. O momento, regado a brincadeiras e diversão, influenciou no fortalecimento de laços, aprendizados e na compreensão do verdadeiro sentido das atividades feitas ao longo de 2019: a busca por uma vida melhor, mais tranquila e menos impactada pela situação de violência e violação de direitos. 

“Esse ano foi muito produtivo. O Projeto nos ajudou a nos aceitar como nós mesmos. Criou uma união que nunca tivemos dentro da ocupação. Hoje, todos andam em todos os lugares, é um grupo só. Aprendemos a brincar. O Estação Subúrbio veio para nos mostrar como era a infância de antigamente, trazer nossa ancestralidade, não só de guerreiros e guerreiras, mas das brincadeiras de nossos pais e nossas mães”, afirmou João Vitor, adolescente atendido pelo Projeto. “Reconhecer-se é ato fundamental na construção da identidade e negado a tantos e tantas… Como construir uma nação em cima de tantas negações?”, questiona Maria Thereza Marcilio, presidente da Avante – Educação e Mobilização Social, que esteve presente no encerramento.

A programação, ciceroneada por três palhaços, começou com o palco e o microfone abertos para um “show de talentos”, tudo proposto pelas próprias crianças. A participação, em caráter coletivo, ajudou a consolidar a compreensão de que hoje estão vivendo um outro momento na relação, mais pacífica. O que, antes, na opinião de Isabela, mãe de Kauane e de Alexandra, criançasatendidas pela iniciativa,era bem difícil. “O Projeto mudou muitas coisas. As crianças sabem coisas que nunca souberam. Eram bastante agressivas e depois do projeto voltaram a interagir umas com as outras. No começo tinham os conflitos, mas melhorou e diminuiu bastante” disse. 

O muro cinza da comunidade transformou-se em cenário de uma exposição fotográfica que resgatou lembranças de momentos especiais vivenciados ao longo dos três anos do Projeto (2017 / 2018 / 2019). As paredes da Ocupação Quilombo do Paraíso marcavam o passo a passo da evolução do aprendizado sobre cuidado, resolução de conflitos, fortalecimento de vínculos e diálogos, e possibilidade de outros caminhos, além dos dias vividos à margem da sociedade e entre as estatísticas que o Estado oferece. Foi mais um dia criando novas memórias. “A minha vida mudou muito. Eu não gostava de abraço, por exemplo, e no Projeto eu aprendi que posso abraçar quando as pessoas me pedem. Hoje já faço isso”, disse Tainá, 13 anos.  

Nas fotos também foi possível relembrar os passeios promovidos pelo Estação Subúrbio, que proporcionaram acesso à cultura e ao lazer, dando-lhes a oportunidade de exerceram o direito à cidadania. Sorrisos, novos abraços, novos sentidos e um olhar mais cauteloso e reflexivo sobre o significado dessas experiências. “A visita à câmara municipal me marcou. Descobri o que significou a câmara, na história, eu não sabia. Além de ver a medalha que meu ídolo, Zumbi dos Palmares, ganhou. Vi a primeira urna de prata, as moedas de prata. Foi muito marcante e ficará sempre na minha memória”, declarou João Vitor. 

Para Yasmin Vitória, 11 anos, o desejo é que no ano que vem eles conversem melhor, “todo mundo se alegre igual ou como no ano de 2019”, mas também que o Projeto cause sentimentos como o que ela teve ao ir ao cinema pela primeira vez. “Foi muito divertido ir ao zoológico e foi minha primeira vez quando fui ao cinema. Era meu sonho ir ao cinema! Fiquei tão feliz quando soube que ia ter passeio, foi uma oportunidade que o Projeto me deu. E eu consegui!”, disse. 

Em paralelo à realização de sonhos como esses, Yasmin fala as conquistas adquiridas com as atividades, que tem como principal meta oportunizar uma vida mais digna e tranquila para a comunidade. “Aprendi que nada se resolve com violência. Quando alguém briga comigo, tenho que conversar e não revidar se me baterem ou forem grossos. Não podemos bater no colega. Zé [educador brincante do projeto] me disse que devemos respeitar os direitos dos outros. É muito bom, né? Eu respeito todo mundo”, disse. 

Uma confraternização, para muitas pessoas, significa o começo de novos ciclos, um espaço que expressa o sentido das conexões e experiências vividas nos dias anteriores. Para a Ocupação Quilombo do Paraíso, esse momento lembrou uma história que ainda não terminou de ser escrita, mas são sucessos que integram um livro ainda em construção. “Quando o Projeto entrou na Ocupação, as crianças de fora entraram para brincar também, pois viram que estávamos nos divertindo, e as pessoas passaram a nos ver de forma diferente daquela que pensavam. As pessoas à volta brigavam com a gente. Agora, podemos brincar no campo fora da Ocupação porque o Estação Subúrbio mudou isso. Não tem mais briga. Só queríamos fazer amizade e as pessoas entendem hoje”, finaliza João Vitor.