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Quando a criança é um bebê

24/09/15 15:20 - Notícias

24 de setembro de 2015

Quando a criança é um bebêO tom da voz, as mãos carinhosas, os gestos, o olhar interessado. Em todos os momentos de interação do adulto com o bebê, há detalhes que se mostram fundamentais e que devem estar na mira dos profissionais de creches. “É preciso muita ‘atenção com a atenção’ à criança de 0 a 3 anos. O bebê tem um enorme trabalho, que é muito solitário, de descobrir o mundo. A função do adulto é mostrar e proporcionar para esse bebê as muitas possibilidades, e não sabotar seu crescimento”, defende Maria Lúcia Peçanha, especialista no segmento creche e membro-fundadora da Rede Pikler Brasil.

Para tratar da relevância dos detalhes na rotina do bebê e discutir o desenvolvimento na primeira infância, a Rede Pikler Brasil promove, em parceria com a Oscip Acolher e com a Red Pikler Nuestra America, o “I Simpósio Internacional sobre a Primeira Infância (SC): a ciência dos detalhes na organização da vida cotidiana do bebê”.

O evento, que acontece em Florianópolis nos dias 6 e 7 de novembro, abordará o desenvolvimento na primeira infância a partir das ideias da pediatra húngara Emmi Pikler (1902-1984). “O projeto educativo de Pikler se baseia em quatro princípios do desenvolvimento do bebê: o valor da atividade autônoma, o valor de uma relação afetiva e privilegiada com o cuidador, o respeito pela criança e seu entorno e a importância de uma boa condição física de saúde em todos os seus aspectos”, explica a assistente social Sylvia Nabinger, presidente da Oscip Acolher. A profissional divide a organização do simpósio com as psicólogas Tais Cesca e Verônica Chaves.

Segundo Sylvia, a discussão do tema é urgente no Brasil: “Antigamente, as crianças iam para a escola com alguns anos e hoje vão com alguns meses. O Brasil demorou muito para ter essa cobertura de creches, que ainda é deficitária, para crianças de 0 a 3 anos. Por ser uma área relativamente nova, muitos profissionais transportaram para as crianças pequenas os projetos pedagógicos voltados para as maiores. Cabe a todos organizarmos um projeto educativo que se baseie nos princípios dos cuidados”, afirma.

Na visão de Maria Lúcia, a creche é um lugar privilegiado para o cuidado do bebê. “A oportunidade de trabalhar com creche é uma oportunidade de mudar o mundo, atingindo o bebê, a educadora e a família”, aponta. “Entre 0 e 3 anos, a criança adquire habilidades que vai ter para o resto da vida, como andar e falar. Vem aí todo um desenvolvimento cerebral que é inegável e que precisa ser muito bem cuidado. Essa criança precisa de pessoas muito especializadas perto dela, que tenham um repertório específico para essa idade”, analisa.

Sylvia concorda e emenda que, à medida que ganha força a ideia de que o bebê apresenta competências desde que nasce, a infância e o desenvolvimento infantil passam a ser vistos de maneira diferente. “Começamos a confiar mais nas crianças, mesmo sendo pequenas. O bebê, através do movimento livre e num ambiente protegido e sem tantos estímulos visuais, por exemplo, constrói competências para poder interagir com os brinquedos”, afirma. “Muitas vezes, no entanto, o adulto acaba valorizando a dependência. Em vez de favorecer o ambiente e deixar o bebê tranquilo e com autonomia na seleção do que vai olhar, o adulto escolhe por ele e o coloca na frente da televisão ou em um bebê – conforto”, pondera.

Conforme define Sylvia, o movimento livre — ação que integra a atividade autônoma, o primeiro dos quatro princípios do desenvolvimento do bebê no projeto educativo de Pikler — beneficia a segurança psíquica que a criança vai ter para o resto da vida. “O bebê deve fazer por sua própria iniciativa o que é capaz de fazer, e o adulto deve respeitar a maturidade e a individualidade de cada um, sem achar que todos estão prontos para fazer as mesmas coisas nos mesmos momentos”, salienta.

Para tratar dos diversos detalhes que se relacionam aos cuidados com o bebê, o simpósio levará a Florianópolis três personalidades internacionais especialistas no tema: a psicóloga e pedagoga Anna Tardos, filha de Emmi Pikler e mantenedora do Instituto Pikler-Lóczy, fundado por sua mãe em 1946 em Budapeste (Hungria); a psicóloga Agnès Szanto, originária da Hungria e naturalizada francesa, vice-presidente da Associação Pikler-Lóczy da França e autora de várias publicações científicas sobre o tema da primeira infância; e a psicóloga argentina Myrtha H. Chokler, diretora da pós-graduação em desenvolvimento infantil na Faculdade de Educação da Universidade Nacional de Cuyo e membro do Comitê Executivo da Red Pikler Nuestra America.

Instituto Pikler-Lóczy

Criado na rua Lóczy, em Budapeste, logo depois da Segunda Guerra Mundial, o Instituto Lóczy surgiu para acolher crianças órfãs ou abandonadas. A pediatra Emmi Pikler coordenou a instituição entre 1946 e 1979, elaborando uma nova referência de atenção à criança pequena. “A instituição surgiu apostando na esperança”, analisa Maria Lúcia Peçanha, especialista em educação infantil e membro-fundadora da Rede Pikler Brasil.

“Ao cuidar e dar toda a atenção que a criança necessita, os bebês, mesmo em condições muito adversas, tornam-se adultos bem-sucedidos em suas vidas”, afirma a especialista, citando uma pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS) realizada no fim dos anos 1960. O estudo demonstrou que as primeiras crianças atendidas pela instituição formaram suas próprias famílias e desenvolveram uma vida adulta integrada na sociedade. “A única aposta no futuro real é a aposta na vida do bebê”, conclui Maria Lúcia.

Fonte: site do Paralapracá.