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Comércio de bonecas ainda não entendeu: #RepresentatividadeImporta

07/05/18 10:45 - Notícias

7 de maio de 2018

A Campanha Cadê Nossa Boneca? repete esse ano (2018) um estudo realizado pela primeira vez em 2016, que denunciou a falta de representatividade na indústria e no comércio de brinquedos brasileiros. Segundo o levantamento, que teve como escopo os principais fabricantes de brinquedos e o comércio online brasileiro, o cenário permanece praticamente o mesmo. Ou seja, uma média de 6,5% das bonecas fabricadas é negra. E do total dos modelos expostos, disponíveis para venda, apenas 3% atende ao perfil de 53,6% da população brasileira, que se declara negra ou parda, segundo o IBGE.

Nesse segundo levantamento, feito em março desse ano (2018), foi contabilizado um total de 762 modelos de bonecas fabricadas. Desses, apenas 53 eram negras (7%). Dos 26 fabricantes analisados, 14 possuem bonecas negras nos seus inventários.  No levantamento realizado em 2016,foram identificados ao todo 1945 modelos de bonecas dos quais apenas 131 eram negras, totalizando um percentual muito similar ao deste ano, apenas 6,3 %.

A pequena mudança no cenário se deu em relação ao fabricante com maior número de bonecas negras no inventário. Dois anos atrás, o fabricante Miele foi apontado como aquele com maior porcentagem de bonecas negras em seu portifólio – 25% modelos (3 modelos, no total dos 9 que fabrica), seguido pelo Sideral com 23% e Milk com 15%. Esse ano o fabricante Milk passou a encabeçar a lista, com 12 modelos de bonecas negras, seguido por Roma Brinquedos, com 8 bonecas.

Foram analisadas as bonecas produzidas pelos fabricantes de brinquedos associadas à ABRINQ (Associação Brasileira de Fabricantes de Brinquedos), repetindo a metodologia utilizada no levantamento realizado em 2016, ano de lançamento da Campanha de conscientização Cadê Nossa Boneca?.

Comércio

Mylene Alves, psicóloga e uma das idealizadoras da Campanha, conta que um dos principais desafios para a iniciativa foi encontrar dados sistematizados e precisos sobre a fabricação e comercialização de bonecas negras no mercado brasileiro, para basear sua argumentação. Então, foi realizado o primeiro levantamento de dados sobre as práticas do Trade de bonecas, para lançar luz sobre a questão. Repetindo a pesquisa dois anos depois se percebe que “há uma prevalência de bonecas brancas entre os principais revendedores de brinquedos online disponíveis para compra”, conta Mylene.

No que se refere à venda on line, o percentual de bonecas negras é ainda menor do que percentual do total de bonecas fabricadas. Enquanto são fabricadas uma média (dos dois anos) de 6.5%, apenas 3% das bonecas presentes nos sites de venda são negras. Segundo Mylene, foram analisados os sites das Amercianas.com; Ri Happy e Walmart.com.

O cenário, nesses dois anos em nada mudou. Mesmo com a intensificação, no cenário nacional, de temas relacionados ao racismo e à importância da representatividade na infância. Agora, como em 2016, a pior situação foi identificada no site das Americanas.com, que aparece em último lugar, com apenas 19, de 560 bonecas negras (3 %); seguida da Ri Happy, com 19 de 407 (4%); e Walmart, com 45 de 896 ( 5%).

Representatividade

Segundo especialistas, o processo de auto identificação, que acontece durante o processo de brincar é fundamental para o desenvolvimento da autoestima das crianças. “A partir daí, é pensar que ter bonecas pretas é necessário para uma Educação mais justa, para alcançar as ideias de diversidade, de valorização do sujeito, de fortalecimento da autoestima, das inter-relações pessoais e sociais da criança. Faz todo o sentido, de convivência social, de respeito ao outro”, disse Ana Marcilio, consultora associada da Avante e idealizadora da Campanha, ao lado de Mylene Alves, sobre a importância da presença da diversidade, em especial no contexto da Educação formal.

A Campanha nasceu em 2016, com o objetivo de chamar atenção sobre a falta de diversidade nas prateleiras das lojas brasileiras e já conta com mais de 27 mil seguidores no facebook e cerca de 200 bonequeiras cadastradas no site da Campanha, dando início a uma rede nacional. Sucesso esse que Ana Marcilio atribui à existência de uma demanda histórica. “Tá aí a quantidade de iniciativas de fabricação artesanal de bonecas, para responder, minimamente, à essa demanda. A Cadê Nossa Boneca? não é um produto de marketing, nem apenas uma campanha de advocacy que a gente propôs, ancorada em uma inquietação nossa. Ela nasce de um acúmulo de conversas e brincadeiras com as crianças, com as famílias, e também nas escolas.  Conversas sobre a própria criança, o brincar, o brinquedo, os direitos, a iniquidade, as diversas formas de violência, o impacto do racismo nesse público. Enfim, acredito que o sucesso da campanha vem do fato de ela ser uma demanda que é muito maior que a nossa, é uma demanda real das crianças brasileiras”, explica.

A meta principal da campanha Cadê Nossa Boneca? continua atual e no foco da ação: atingir a produção e comercialização das bonecas. “A gente quer que as vitrines, pós-campanha, tenham outra cara, que não seja uma cara de loira e olhos claros, e que reflita um pouco mais quem somos”, sentencia a consultora associada da Avante, instituição que chancela a Campanha.