Notícias

Revista Pátio publica artigo de Maria Thereza Marcílio sobre o educador e os tempos atuais

08/04/15 12:34 - Notícias

8 de abril de 2015

Face à mudança de paradigma, que exige um educador mais autônomo, reflexivo, comprometido  com uma atualização constante e com o questionamento do fazer docente como matéria de estudo, a gestora institucional da Avante, Maria Thereza Marcílio, propõe a seguinte questão: como atender a esta nova demanda? Sua pergunta gera outras, todas respondidas no artigo – O professor desejado: O que podemos oferecer a ele (versão completa), cuja edição resumida foi publicada na edição de fevereiro da revista Pátio Ensino Fundamental e reproduzido abaixo.

 

O professor desejado: O que podemos oferecer a ele 

Qual o cenário hoje?

Dezoito anos após a promulgação da LDB 9394/96, é possível constatar avanços significativos no cenário da educação. Contudo ainda há muito por fazer e, ouso dizer, a questão da formação e valorização do professor é o ponto que precisa de maior atenção e de intervenções que signifiquem uma mudança de patamar.
Para tanto, é necessário que as instituições formadoras, olhem para esse campo com a seriedade e compromissos necessários. O conhecimento científico, base da formação inicial do professor não prescinde de uma imersão no fazer docente. Antes, é preciso que ele seja o centro dos cursos de licenciatura, de formação de professores, que a sala de aula da Educação básica seja o campo de estudo e a prática docente seja tematizada a partir da fundamentação teórica. Em outras palavras, como o saber docente é, por natureza, secundário, pressupondo um saber teórico que o antecede, ele há que se ancorar na reflexão sobre a prática sob pena de estar fadado à defasagem. Sintetizando, com Délia Lerner: “Desse modo, o saber didático, ainda que se apoie em saberes produzidos por outras ciências, não pode deduzir-se simplesmente deles, o saber didático se constrói para resolver problemas próprios da comunicação do conhecimento, resulta do estudo sistemático das interações que se produzem entre o ensino e a aprendizagem de cada conteúdo específico, se elabora através da investigação rigorosa do funcionamento das situações didáticas”2.

Sendo assim, o papel do professor deixa de ser o de aplicar métodos e passa a ser o de decidir, de forma cada vez mais autônoma e reflexiva, suas ações. Esta mudança de paradigma vem acarretar uma crise na comunidade de educadores, visto que, a matriz desses profissionais esteve sempre muito ligada a princípios referentes à centralização, diretividade, comando, no que tange às relações; e no que se refere à didática, a uma prática reprodutora, executora, nos moldes de uma experiência pessoal e de uma formação inicial deficitária.

O cenário educacional configura-se de modo geral por um quadro de profissionais que procura se apropriar das teorias de aprendizagem, mas que na prática sente-se absolutamente inseguro, pois estas novas demandas apontam para um profissional crítico, reflexivo, conhecedor do cenário político e social e, principalmente, produtor de conhecimento. A profissão de professor passa a exigir uma atualização constante, seu papel assume um caráter mais complexo. Como atender a estas novas demandas?

Tudo o que o professor trouxer na bagagem é objeto de permanente reflexão e atualização. Daí que além da formação inicial, é fundamental haver as condições necessárias para a formação continuada dos professores. Se antes a responsabilidade era exclusivamente das instituições formadoras, agora se trata do próprio sistema educacional. No entanto, é fato que a grande maioria das escolas não tem um programa de acompanhamento sistemático que sustente a prática do professor, assegurando uma atitude mais reflexiva e que lhe dê mais confiança e competência para fazer a
in Quem é o professor do 3º milênio. Novas perspectivas em educação.

E o professor, qual a sua parte nesta rede?

Como profissional responsável pela tarefa de ensinar, o professor tem que ter consciência da complexidade da mesma, permanecendo sintonizado com o mundo, identificando a direção a ser seguida, promovendo e facilitando as trocas com a sociedade. No seu fazer cotidiano, nas práticas escolhidas, nas estratégias elaboradas, nas intervenções propostas, ele tem que ter presente que os alunos vão para a escola para aprender a ser, a conviver, a aprender, a construir, a sonhar, por isso a escola não pode estar distante da realidade, de costas para a vida.

Tudo isto o professor faz, sendo ele também sujeito de desejos, sentimentos e ideias. Há, portanto, inúmeras possibilidades de que as situações de ensino sejam contaminadas pelos seus preconceitos ou que sejam entendidas sob a ótica de apenas um ponto de vista, o dele. Ser professor significa, então, viver um processo de autoconhecimento, de análise e reflexão permanentes sobre suas próprias crenças.
Ensinar é, portanto, ademais de complexa, uma tarefa delicada, pois, sua matéria prima são as vidas dos aprendizes e para intervir em vidas é necessário suavidade, delicadeza, ciência e arte.

De que é feita a prática do professor?

A par de toda a complexidade e delicadeza já mencionadas, o professor também é solicitado a prestar contas de sua tarefa: o seu papel é o de mediador e este só se realiza pela aprendizagem dos alunos. Há, portanto, um duplo compromisso: com o processo e com os resultados, ou seja: garantir que todos os alunos aprendam. Para tal, ele necessita conceber, realizar, analisar e avaliar as situações didáticas e intervir no processo de aprendizagem dos alunos. É preciso, portanto, gerir os trabalhos de sua classe. Para o professor de Educação Infantil e séries iniciais da Educação Básica, essa tarefa é ainda mais demandante, pois ele trabalha com múltiplas linguagens e com diferentes áreas de conhecimento. Conhecê-las, não como aluno, mas como expert: reconhecer e identificar as diferentes linguagens, conhecer a estrutura e as idéias organizadoras das diversas áreas de conhecimento para poder decidir sobre a relevância e a necessidade de integrarem o currículo.

Porém isso não é o bastante; ensinar é interagir, pressupõe uma relação triangular entre quem ensina, quem aprende e o objeto de conhecimento. Não basta conhecer o objeto, é necessário também conhecer o sujeito que aprende. Este conhecimento está na Psicologia, na Antropologia, na Sociologia e na Filosofia. Trata-se de conhecer o indivíduo, seu desenvolvimento, como ele aprende e se relaciona. Este conhecimento é necessário para desenvolver boas situações de aprendizagem tanto as que se relacionam aos objetos de conhecimento escolar, quanto as que contribuem para a construção das capacidades cognitivas, estéticas, motoras e de interação social.
Mas é preciso também conhecer o aluno como ser social, portanto, conhecer a comunidade à qual ele pertence, suas instituições, a cultura, seus códigos, valores, necessidades e projetos. Este conhecimento é fundamental para que o professor seja um leitor crítico e reflexivo das práticas educacionais e dos papéis institucionais. Muitas vezes, os impasses que ocorrem na escola, prejudicando a aprendizagem dos alunos, são decorrentes d desconhecimento ignorância em relação às diferenças culturais.

Paralelamente, entender as dimensões social, histórica e política da educação, da escola e do papel do professor é condição para que seja um sujeito autônomo, tanto profissional quanto politicamente, capaz de posicionar-se e dirigir sua prática para alcançar os objetivos de formar o cidadão. Finalmente é preciso entender a busca do conhecimento pelo homem e as diferentes perspectivas e explicações dadas a esse processo ao longo da história. Este saber dá sentido à ação de educar, analisando: o que vale a pena ensinar? Para quê? Para quem?

No entanto, conhecer o objeto de ensino e o sujeito que aprende ainda não garante a articulação dos vértices do triângulo, formado por estes dois aspectos e a ação docente. Criar situações que resultem em aprendizagem é um processo que envolve saber formular perguntas e utilizar múltiplas formas de acessar o conhecimento, propor situações desafiadoras. Todas essas ações significam intervenções transformadoras.
Estas modificações, contingentes ao ato de ensinar, podem ser mais ou menos adequadas, podem estar mais ou menos distantes do conhecimento como foi produzido. O estudo desse processo que resulta na comunicação do conhecimento é o objeto da ciência didática. Esta concepção da didática como ciência autônoma, com objeto próprio, se opõe à idéia de que, para ensinar, basta “importar” conhecimentos de outras ciências e aplicá-los á sala de aula. Ela é o coração da formação do professor e o que possibilita articular os dois vértices do triângulo.

Além destes conhecimentos, ser professor requer atitudes de escuta, de compaixão e acolhimento – genuína solidariedade – e de encantamento permanente. Mais ainda, a capacidade de lidar com o inusitado e de conviver com a insegurança. Requer qualidades e atitudes de criador. O criador zela, se preocupa, se
coloca disponível, se aproxima da criação; e sobretudo extrai prazer e se alimenta com a criação. Aqui reside a chama, a alma e a marca do ser professor, e talvez esteja aqui o limite que se impõe a quem não o é. Estas qualidades não são facilmente mensuráveis e não são parte do patrimônio genético, não é algo com que se nasce. Portanto, ser professor, não é, definitivamente, para todo o mundo. Por outro lado, lidar com o inusitado pertence ao cotidiano da profissão o que faz com que o exercício desta exija a capacidade de enfrentar problemas mal definidos, para os quais não há uma fórmula única. Exatamente por isso, pressupõe e requer planejamento detalhado e diário, análise de possibilidades, objetivos claros.

E mais, se precisamos planejar, agir, modificar o planejamento e a ação, nesse processo redefine-se constantemente o problema. “Deveríamos conceber a educação da mesma maneira. Se a reforma educacional supõe um problema mal estruturado, não deveríamos buscar a solução, porque não há somente uma. Não há nada já feito que nos permita solucionar o problema, e não devemos ter muitas esperanças em algoritmo inexistente, deveríamos centrar-nos no processo – a educação como processo e não como produto. Como podemos nos organizar para descobrir cada vez mais coisas sobre a aprendizagem e por esses conhecimentos? Necessitamos de um sistema, um processo, no qual nossa compreensão e nossa prática educativa evoluam constantemente”.
Formação continuada: a prática pedagógica como objeto de análise.

Como analisar e estudar uma prática em que, aquele que deve estudá-la, é um dos atores principais, que está imerso no seu papel, vivendo-a como tal? Para que o professor possa realizar tarefas de metacognição é preciso evidenciar a prática, torná-la visível e analisável. Saber o que dá certo, por quê e como funciona, e em que circunstância foi feito. O processo de formação continuada compreende a análise de prática através de diversos instrumentos entre os quais, vídeos, da observação ao vivo e da escrita de relatórios diários. A reflexão coletiva a partir destes instrumentos permite o avanço e a transformação da prática.
Só assim será possível converter nossos esquemas educativos, informais, fragmentados, locais e freqüentemente inconsistentes, em representações mais próximas às de um especialista, oferecendo as condições para que a educação escolar seja, a um só tempo, elemento integrador e transformador da sociedade.